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Última atualização: 08/03/2004

 
 

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Mulheres em Tempos de Aids: o Desafio da Prevenção

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Kátia Souto*

O crescimento da epidemia de aids entre as mulheres coloca um desafio para todos – governo e sociedade civil - estabelecer estratégias de prevenção às DST/HIV/Aids para as mulheres que leve em conta o contexto sócio-cultural e o universo dos homens e das mulheres, e como se relacionam social e sexualmente entre si.

Sabemos que a existência de tabus sobre a sexualidade tem criado dificuldades tanto para o homem quanto para a mulher, expondo-os, por vezes, a situações de risco e vulnerabilidade à saúde sexual.

Reconhecer e levar em conta a forma pela qual as relações de gênero estão estruturadas na sociedade – fundadas em uma assimetria de poder, nas esferas social, econômica e afetivo-sexual – determinando um contexto em que a população feminina, em particular, encontra-se extremamente vulnerável à epidemia de aids e isto dificulta, por exemplo, a negociação do uso do preservativo por parte dos homens, para a partir daí estabelecer novos parâmetros para os cuidados que se deva ter na vida sexual e reprodutiva de homens e mulheres.

A vulnerabilidade feminina é fortemente definida por um tipo de relação que a mulher mantém com sua sexualidade e consigo mesma, cuja marca tem sido a subordinação ao desejo masculino. Essa vulnerabilidade coloca a mulher em situação de risco às DST e à aids. A identidade feminina construída a partir de determinados valores culturais e sociais reforça o amor como uma categoria de proteção.

A verdade é que as relações e os papéis sociais de gênero estão profundamente ligados às questões de saúde e de vida das mulheres. A maternidade, por exemplo, tida como a expressão máxima da sexualidade feminina, em tempos de aids ganha outra dimensão: a do medo e da culpa. As mulheres têm se deparado com sua soropositividade no pré-natal, no parto, no pós-parto e na amamentação. Muitas dessas mulheres não têm conhecimento de sua soropositividade e desconhecem as possibilidades de diminuição do risco da transmissão vertical a partir de um pré-natal acompanhado e devidamente medicado. E muitas vezes, os profissionais de saúde não respeitam o desejo destas mulheres e seus parceiros de terem filhos.

As diferentes dimensões que determinam uma pessoa a infectar-se pelo HIV é ampla e complexa, envolve questões objetivas e subjetivas, em nível tanto social quanto individual, exigindo que pensemos em formas diferenciadas de intervenção, em particular, no que se refere às mulheres. Entretanto, faz-se necessário que os homens também sejam sensibilizados para as ações de prevenção e nesse sentido é importante destacar o papel que o homem pode ter de cuidador de sua saúde sexual e reprodutiva, como sujeito de si mesmo.

Um dos grandes desafios para a prevenção e controle das DST/Aids é reverter os baixos índices de percepção de risco em relação às DST/HIV e Aids observados na população feminina. Soma-se a isto, a grande parcela de profissionais de saúde que, ainda, continuam pouco sensibilizados em relação às situações de risco e condições de vulnerabilidade a que a população está exposta.

Desta forma, estabelecer estratégias que permitam mudar o quadro de vulnerabilidade feminina às DST/HIV/Aids constitui-se, sem dúvida, uma das principais prioridades. Neste sentido, é importante desenvolver ações que visam ampliar o acesso à informação, propiciar as condições de empoderamento das mulheres, estabelecer estratégias de inclusão dos homens, capacitar os profissionais e outros agentes de saúde para atender essa nova realidade da epidemia e que são essencialmente perpassadas de maneira transversal pelas questões de gênero e pelo conceito mais amplo de vulnerabilidade.

Os serviços e profissionais de saúde precisam integrar mais as ações de assistência e prevenção numa visão de integralidade e intersetorialidade, proporcionando a homens e mulheres a possibilidade de perceberem os cuidados a saúde sexual e reprodutiva que cada um possa ter, independente da demanda que o(a) levou ao serviço de saúde.

É necessário promover isso em situações concretas: na interface da infecção pelo HIV com outras DST, com os canceres genitais, a prática da anticoncepção, em programas de educação sexual voltados para os jovens, em projetos de intervenção comportamental junto a populações específicas, nos serviços de saúde em geral.

Nesse sentido as ações de prevenção devem propiciar e estimular a adoção de práticas seguras em relação às DST/HIV/Aids, entre as mulheres e homens; garantir insumos de prevenção, preservativo feminino e masculino; promover a capacitação de profissionais da rede de saúde para o atendimento em DST e aids.

* Kátia Souto – Assessora Técnica da Coordenação Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde – Unidade de Prevenção e Diretora da União Brasileira de Mulheres.