| Mulheres em Tempos de Aids: o
Desafio da Prevenção

Kátia Souto*
O crescimento da epidemia de aids
entre as mulheres coloca um desafio para todos – governo e sociedade
civil - estabelecer estratégias de prevenção às DST/HIV/Aids para as
mulheres que leve em conta o contexto sócio-cultural e o universo
dos homens e das mulheres, e como se relacionam social e sexualmente
entre si.
Sabemos que a existência de tabus
sobre a sexualidade tem criado dificuldades tanto para o homem
quanto para a mulher, expondo-os, por vezes, a situações de risco e
vulnerabilidade à saúde sexual.
Reconhecer e levar em conta a forma
pela qual as relações de gênero estão estruturadas na sociedade –
fundadas em uma assimetria de poder, nas esferas social, econômica e
afetivo-sexual – determinando um contexto em que a população
feminina, em particular, encontra-se extremamente vulnerável à
epidemia de aids e isto dificulta, por exemplo, a negociação do uso
do preservativo por parte dos homens, para a partir daí estabelecer
novos parâmetros para os cuidados que se deva ter na vida sexual e
reprodutiva de homens e mulheres.
A vulnerabilidade feminina é
fortemente definida por um tipo de relação que a mulher mantém com
sua sexualidade e consigo mesma, cuja marca tem sido a subordinação
ao desejo masculino. Essa vulnerabilidade coloca a mulher em
situação de risco às DST e à aids. A identidade feminina construída
a partir de determinados valores culturais e sociais reforça o amor
como uma categoria de proteção.
A verdade é que as relações e os
papéis sociais de gênero estão profundamente ligados às questões de
saúde e de vida das mulheres. A maternidade, por exemplo, tida como
a expressão máxima da sexualidade feminina, em tempos de aids ganha
outra dimensão: a do medo e da culpa. As mulheres têm se deparado
com sua soropositividade no pré-natal, no parto, no pós-parto e na
amamentação. Muitas dessas mulheres não têm conhecimento de sua
soropositividade e desconhecem as possibilidades de diminuição do
risco da transmissão vertical a partir de um pré-natal acompanhado e
devidamente medicado. E muitas vezes, os profissionais de saúde não
respeitam o desejo destas mulheres e seus parceiros de terem filhos.
As diferentes dimensões que
determinam uma pessoa a infectar-se pelo HIV é ampla e complexa,
envolve questões objetivas e subjetivas, em nível tanto social
quanto individual, exigindo que pensemos em formas diferenciadas de
intervenção, em particular, no que se refere às mulheres.
Entretanto, faz-se necessário que os homens também sejam
sensibilizados para as ações de prevenção e nesse sentido é
importante destacar o papel que o homem pode ter de cuidador de sua
saúde sexual e reprodutiva, como sujeito de si mesmo.
Um dos grandes desafios para a
prevenção e controle das DST/Aids é reverter os baixos índices de
percepção de risco em relação às DST/HIV e Aids observados na
população feminina. Soma-se a isto, a grande parcela de
profissionais de saúde que, ainda, continuam pouco sensibilizados em
relação às situações de risco e condições de vulnerabilidade a que a
população está exposta.
Desta forma, estabelecer estratégias
que permitam mudar o quadro de vulnerabilidade feminina às
DST/HIV/Aids constitui-se, sem dúvida, uma das principais
prioridades. Neste sentido, é importante desenvolver ações que visam
ampliar o acesso à informação, propiciar as condições de
empoderamento das mulheres, estabelecer estratégias de inclusão dos
homens, capacitar os profissionais e outros agentes de saúde para
atender essa nova realidade da epidemia e que são essencialmente
perpassadas de maneira transversal pelas questões de gênero e pelo
conceito mais amplo de vulnerabilidade.
Os serviços e profissionais de saúde
precisam integrar mais as ações de assistência e prevenção numa
visão de integralidade e intersetorialidade, proporcionando a homens
e mulheres a possibilidade de perceberem os cuidados a saúde sexual
e reprodutiva que cada um possa ter, independente da demanda que
o(a) levou ao serviço de saúde.
É necessário promover isso em
situações concretas: na interface da infecção pelo HIV com outras
DST, com os canceres genitais, a prática da anticoncepção, em
programas de educação sexual voltados para os jovens, em projetos de
intervenção comportamental junto a populações específicas, nos
serviços de saúde em geral.
Nesse sentido as ações de prevenção
devem propiciar e estimular a adoção de práticas seguras em relação
às DST/HIV/Aids, entre as mulheres e homens; garantir insumos de
prevenção, preservativo feminino e masculino; promover a capacitação
de profissionais da rede de saúde para o atendimento em DST e aids.
*
Kátia Souto – Assessora Técnica da Coordenação Nacional de DST/Aids
do Ministério da Saúde – Unidade de Prevenção e Diretora da União
Brasileira de Mulheres.
|