| Feminismo e diversidade:
refletindo seus diferentes matizes e cores

Kátia Souto*
O tema por si só é instigante e exige que antes reflitamos sobre o
feminismo. De que conceito(s) de feminismo(s) estamos falando? De
quais espaços do feminismo estamos falando? Falo do espaço que
represento, da União Brasileira de Mulheres. E começo relembrando a
célebre afirmação de Simone de Beauvoir, e que foi e sempre será
marcante para todas nós mulheres feministas: “não se nasce mulher,
se faz mulher”. Ao que nós feministas marxistas acrescentamos,
faz-se mulher em um determinado tempo histórico, em um tipo de
sociedade determinada por formas de relações entre as classes,
incluindo aí também raça/etnia, gênero, geração e orientação sexual.
Ou seja, fazer-se mulher em cada tipo e período de realização de um
sistema social ganha conotações particulares, ganha cores e matizes
próprias e diversas. Classe e
gênero na atualidade! Não caberia referir apenas a relações sociais
de classe e de sexo/gênero, o que pode implicar um viés marxista
estruturalista, de reconhecimento de autonomias, admitindo que
classe e sexo/gênero ocorreriam em paralelo. Tampouco referir-se a
relações de sexo/gênero segundo as classes, o que poderia escorregar
para uma perspectiva marxista funcionalista, passando o conceito de
classe a definir tudo. A proposta é discutir relações sociais de
gênero em sociedade de classes nas condições objetivas de hoje e
levar em conta que estas relações são dinâmicas e vivas e sofrem
mudanças da sociedade e de seu tempo.
Aí reside o grande desafio – quais
condições objetivas? E de quais mulheres em quais condições
objetivas? E os homens? Pois estamos falando das relações entre os
gêneros e como elas se expressam. Portanto, voltamos ao ponto
inicial – de que feminismo(s) estamos falando? De que projeto(s)
político(s) feminista(s)? Esta é a primeira diversidade posta.
Para pensar este projeto então,
partimos da seguinte reflexão: a antropóloga feminista Gayle Rubin
(1975) assim inicia sua discussão sobre o que é gênero: “Certa vez
Marx perguntou: “ O que é um escravo negro? Um homem da raça negra.
Esta explicação é tão boa quanto outra: um negro é um negro. Ele se
torna escravo somente em certas relações.”
Mary Castro parafraseando diz: “ O
que é uma mulher subordinada? Uma fêmea da espécie humana. Esta
explicação é tão boa quanto uma mulher é uma mulher. Ela se torna
doméstica, esposa, objeto, prostituta, etc., somente em certas
relações.” O que queremos chamar atenção é para: 1) sexo não é uma
simples variável demográfica, biológica ou natural, mas traz em si
toda uma carga cultural e ideológica; 2) não se pode compreender o
específico da identidade feminina, sua posição na sociedade,
valorização ou desvalorização do trabalho, divisões sexuais do
trabalho, casamento, família, exercício da sexualidade e do erótico,
etc., e o componente humano, sem análises comparativas e relacionais
(mulheres X mulheres; mulheres X homens e homens X homens), já que
ambos são construtos desta sociedade e se relacionam entre si; 3) o
gênero se realiza culturalmente por ideologias específicas em cada
momento histórico e tais formas estão associadas a apropriações
político-econômicas do cultural, que se dão em lugares e períodos
determinados.
A noção de historicidade, como base
de todas as relações e valores sociais constitui-se como fundamental
para pensar projeto(s) político(s) do(s) feminino(s).
O conceito de gênero passou e passa
cada vez mais a ser incorporado ao pensamento feminista. Na verdade,
mais do que isto passa a ser incorporado em várias dimensões da
realidade – em pesquisas, análises e políticas públicas. A abordagem
de gênero como importante ferramenta para pensar a desconstrução da
identidades fixas, isto é, os caminhos através dos quais os gêneros
são culturalmente construídos em seus contextos e significados. E
pensar tudo de forma relacional. Do público ao privado. Do coletivo
ao particular.
Pensar a diversidade das mulheres:
negras, índias, jovens, da terceira idade, deficientes, rurais,
urbanas. Pensar a diversidade dos lugares: donas de casa,
trabalhadoras, estudantes. Pensar a diversidade dos espaços do
ser/estar: solteiras, casadas, heterossexuais, homossexuais.
De quais mulheres estamos falando?
Para quais mulheres estamos falando? Com quais mulheres queremos
dialogar? De que projeto estamos falando? De qual sociedade estamos
falando? Voltamos ao ponto de partida, viajamos em círculos?? Não,
voltamos ao ponto de partida sempre, para refletir, mas voltamos
mais plenas, somando experiências, individuais e coletivas, rompendo
amarras e preconceitos, vencendo tabus e obstáculos, superando o
tempo, construindo novas certezas, abrindo novas portas, incluindo
sangue novo, vidas novas, ampliando horizontes, construindo novas
perspectivas, novos caminhos.
Não há manuais prontos sobre este ou
tal e qual feminismo! O feminismo é um processo em aberto, é uma
construção inacabada, carente de debate(s), sempre. Requer
criatividade, requer resgate da radicalidade, requer repensar e
inclusão. Requer despir de verdades prontas e acabadas. Requer
debate de idéias. Requer superar conceitos e pré-conceitos. Requer
humildade. Requer emoção e paixão.
Marxismo e feminismo não são
antagônicos como buscaram ecoar pelos cantos e pelos movimentos. Há
que se resgatar a importância do marxismo para a reflexão teórica da
importância de se romper as amarras das mulheres para a sua
verdadeira emancipação. A grande contribuição do marxismo para a
luta feminista e a emancipação das mulheres é a desnaturalização da
opressão de gênero, da subalternidade das mulheres nas relações de
gênero no campo biológico. O que permite pensar e construir a
igualdade de gêneros nas relações.
Estamos percorrendo caminhos que
outras já percorreram antes, e tantas que ainda não chegaram e com
certeza virão e se somarão a nós, quando abrirmos mais o nosso
pensar e o nosso coração. Estamos ainda carentes da inclusão das
diferentes mulheres dos diferentes espaços de nossa sociedade que se
dizem e se sentem feministas e que nós ainda não a incluímos neste
ou naquele projeto. Que pretensão? O projeto é nosso e para nós??
Pensamos, pensávamos que era para todas. Vamos resgatar a
diversidade, que de novo, outra vez não é nossa! É do tempo, do
espaço, da história de cada uma e de todas. Vamos somar e lembrar
que cada uma de nós traz a marca de outras Marias que chegaram
antes. Que bom que todo ponto de chegada é também ponto de partida.
Que cada encontro é construção de novos encontros. E que no próximo
encontro feminista haja mais inclusão e outras mulheres somem-se a
este espaço e que possamos discutir também o espaço do diálogo com
os homens.
Kátia
Souto é jornalista e coordenadora nacional da União Brasileira de
Mulheres
* Apresentação na mesa redonda do
14º Nacional Feminista: “ Feminismo e Diversidade/Articulação do
Projeto Feminista na Sociedade” .
Bibliografia pesquisada:
Araújo, Clara. Encarte teórico da
revista “Presença da Mulher”, Marxismo e Feminismo – tensões e
encontros de utopias atuais;
Castro, Mary. Encarte teórico revista “Presença da Mulher”, “Classe,
Gênero e Raça”;
Bebel, August. “A Mulher e o Socialismo”.
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