União Brasileira de Mulheres
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Última atualização: 10/03/2004

 
 

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Este é um espaço reservado para a sensibilidade literária que elege a mulher e suas lutas como fonte de inspiração.

DECIFRA-ME!
Uma homenagem do Grupo DIVAS (Grupo em Defesa
da Diversidade Afetivo-Sexual) às mulheres, pelo 08 de Março


Não sei quantos mistérios possuo,
quantos sentidos me invadem,
quantos desejos invento, quantos amores revelo.
Por isso sou assim: reticências, penumbras, esfinges,
dúvidas, certezas, corações, delírios, fantasia.
Sou a máscara do drama que enfrenta
a comédia sem graça das piadas machistas,
do preconceito visível que derrama sobre nós a lama da insensatez,
do que é desumano, vil.
Sou todas as faces marcadas pela agonia do não-direito,
da repressão, opressão, de um tempo marcado pelo autoritarismo,
pela violência de gênero, pela barbárie.
Sou o rosto enrugado que não é respeitado.


E surge em mim o desengano, o amargo da vida,
o pessimismo, a subalternidade, a lástima,
a palidez de uma estrela não iluminada,
uma chama que já não queima.
Tenho medo e me vejo num esquivo usual dos perigos que me envolvem,
que me atormentam, que me perseguem secularmente.
E nos mares da complexidade que a cada instante emerso,
lembro-me das entranhas que se fazem vidas,
do fogo-fátuo que habita minhas florestas
e sinto a força que me alicerça.

Lanço mão dos guardados de dentro de mim,
dos frascos de coragem, audácia, combatividade e
malabarismos para enfrentar o dia-a-dia,
a labuta, os preconceitos, a violência covarde e sexista.
Eu sou essa dialética feminina que me revolve por dentro e por fora,
que se faz presente na marcha pela história.
Eu sou as contradições, o sexto sentido que funciona,
o olho que vê mais adiante da janela,
a avidez da aurora,
as cores múltiplas e ousadas do arco-íris,
eu sou a esperança verdejante e primaveril.

Sou, também, o próprio escárnio, o beijo adocicado
ou aquele cheio de pecado cheirando a inferno.
Sou o canto das DIVAS,
o som dos soluços que ecoam dos rios de lágrimas
que se formam meio à aridez do deserto,
sou o som dos tambores afros,
da poesia agridoce e moderna de Hilda,
da pintura brasileiríssima de Tarsila,
sou o som das mulheres de Tejucupapo,
o som ignominioso e horrendo das mulheres violentadas,
machucadas, despedaçadas.

Mas há em mim o que nunca se sacia: o refazer...
De ser lirismo face a escuridão,
de ser a liberdade mediante à proibição,
de ser o grito quando se exige o silêncio,
de ser a flor quando os canhões já anunciam
em quase toda parte do mundo o estado de terror.
Eu sou essa mística que se fabrica no altar da luta,
pelas pétalas de tantas Rosas Luxemburgos,
de tantas Florbelas,
de tantas Antônias, anônimas e Quitérias.

Sou essa poesia construída tacitamente,
feita de revolta, amor, de dores,
feridas saradas e cicatrizes ainda abertas.
Poesia cheia de sentimentos,
de desabafos poéticos com seus vôos diários
que alcançam sempre o imaginário,
sem ter a pretensão de decifrar
a magnitude e a sensibilidade de ser Mulher...

(Andréa Lima)

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MINHA HEROÍNA
por Ana Càssia

Minha heroína não tem nome, nem rosto, nem idade...
Levanta todos os dias antes de nascer o sol e só volta pra casa
ao anoitecer. 
Cria seus filhos sem homem, mas ama.
Não é Amélia, porque tem suas vaidades... Gosta de alfazema, das
curvas do corpo e do viço da pele.
Vive um dia de cada vez; não tem muito tempo pra viver, mas vive.
E é feliz porque pode trabalhar e sustentar os seus, ainda que
modestamente.
É decente, é guerreira... Chora, mas não lamenta, cai e levanta... e
canta.
Canta e dança à vida, mesmo com tão pouco pra se encantar.
E sorri... isso com muito gosto.
Não veste seda nem jeans. Na verdade nem sabe o tecido das roupas que usa.
Mas é cheirosa... Não é camélia, nem rosa, nem acácia ou fúcsia... é raça.
Minha heroína é uma e todas que aprecio neste mundo.
E que pra não deixar de ter idade, que escolham a que desejarem.
E que pra ter um rosto, que seja sereno e belo.
E que pra não deixar de ter nome, escolho Maria, porque ela tem "a
estranha mania de
ter fé na vida..." E que todos saibam:
 
Maria, seu nome é Mulher!

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DE TUDO, FICARAM TRÊS COISAS
por Fernando Sabino

De tudo ficaram tres coisas:
a certeza de que estamos sempre começando...
a certeza de que é preciso continuar...
a certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...

PORTANTO DEVEMOS

fazer da interrupção um caminho novo...
da queda um passo de dança...
do medo, uma escada...
do sonho, uma ponte...
da procura... um encontro"

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Aviso da lua que menstrua
Elisa Lucinda

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
 julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!